Assaltos nas estradas assustam rodoviários e CORREIO mapeia trechos perigosos na Bahia

Ao fechar os olhos, as imagens violentam a mente do cobrador Edmar Barbosa da Silva, 34 anos: homens armados, desespero, tiro e sangue. Desde o último sábado, as cenas vêm em forma de flashes e o perturbam dia e noite. Ele e 40 passageiros da empresa Cidade Sol testemunharam a morte do motorista Israel dos Santos, 36, baleado após um assalto na BR-110, trecho de Pojuca, na Região Metropolitana de Salvador. A rodovia é considerada por policiais e motoristas como uma das mais violentas que cortam o estado. 

“Um deles estava ‘na bruxa’ (drogado). Deitei na poltrona no primeiro tiro. Os passageiros começaram a gritar. Os vidros quebraram e os estilhaços me cortaram. Dizem os passageiros que um policial estava à paisana e atirou nos assaltantes, que atiraram no motorista. O cara estava com o Satanás no corpo”, diz Edmar.

Nesta terça (19), pela manhã, rodoviários das empresas Cidade Sol e Regional – que também teve um motorista morto em assalto no último fim de semana, no município de Sátiro Dias -, realizaram uma paralisação contra a insegurança no trabalho. Segundo a Agerba, o grupo impediu, durante quatro horas, a saída de 50 ônibus do Terminal Rodoviário de Salvador.

Mapa 
Com a ajuda das polícias rodoviárias Federal (PRF), Estadual (PRE) e a Associação das Empresas de Transporte Coletivo Rodoviário (Abemtro), o CORREIO mapeou as rodovias mais violentas do estado. Os órgãos apontam trechos das BRs 110, 101, 116, 324 e 407, e as BAs 093 e 522 como as mais visadas pelos assaltantes – confira os trechos no mapa ao lado.

Essas rodovias são as preferidas nessa época  por levarem milhares de pessoas às festas de cidades como Cruz das Almas, Amargosa, Jequié, Alagoinhas e Santo Antônio de Jesus. Segundo a polícia, os crimes são praticados por jovens de até 20 anos, que buscam dinheiro para curtir as festas.

Medo
Segundo a Abemtro (de janeiro a abril), foram registrados 9 assaltos a ônibus intermunicipais na Bahia. Parece pouco diante dos relatos.

No dia 11 deste mês, Rosinaldo Santana Reis, 41, sofreu seu quinto assalto. Motorista da empresa Regional, ele conta que um Voyage o fechou no município de Ribeira de Pombal. Quando ele parou o ônibus, três homens saíram do carro e, armados, forçaram a entrada no veículo.

Os assaltantes foram agressivos, xingaram e bateram nos passageiros enquanto faziam o saque, segundo ele. Antes de sair do ônibus, um dos assaltantes ainda avisou: “Quando eu descer atiro na sua cabeça”. Ficou só na ameaça – Rosinaldo teve a sorte que outros colegas não tiveram.

Além do assalto que levou à morte de um motorista em Pojuca, na sexta-feira o cobrador  da empresa Regional Marcos Moreira Nunes, 40, foi assassinado a tiros em Sátiro Dias . O motorista Ronaldo dos Santos também foi baleado e está internado no hospital Dantas Bião, em Alagoinhas.

Antes de fazer a linha Salvador/Pombal, Rosinaldo era motorista da linha Salvador/Camaçari, mas depois do quarto assalto  pediu transferência. “É comum. Quase todos os motoristas daqui já foram assaltados”, declara.

O motorista Robson Argolo diz que o problema vai além dos rodoviários. “Não é a vida de uma, duas pessoas. São 50 vidas em jogo. Na segunda-feira, três motoristas deram baixa na carteira. Eu estou pensando em fazer a mesma coisa”, conta.

Passageiros 
Diante dos riscos, quem vai viajar no São João sente medo. A coordenadora pedagógica Nara Carteado, 37, vai curtir o feriado em São Sebastião do Passé, mas teme os assaltos. “Eu fico apavorada quando algum carro se aproxima do ônibus ou quando alguém entra porque a gente acha que pode ser um assalto”, destaca. Para ela, teria que ter mais policiamento nas rodovias. “Eles (os assaltantes) sabem que tem ônibus circulando sozinho, principalmente à noite, e aproveitam para dar o bote”, analisa.

Já a auxiliar administrativa Tatiane Carvalho, 31 anos, pretende ir para Maragojipe. Este ano, porém, ela não conseguiu passagem direta e vai de ônibus até Cachoeira e de lá tentar outro para Maragojipe. “Só não me arrisco  ir à noite. Se for para viajar à noite, desisto e deixo para ir no outro dia de manhã. Eu acho que faltam blitze da polícia, principalmente nos entroncamentos das cidades”, diz.

Saídas em Comboio para inibir assaltos
Com o aumento do fluxo de passageiros no feriado e a fim de evitar assaltos, algumas empresas organizam as saídas de vários ônibus em fila. “Nessa época, a Polícia Rodoviária nos dá mais apoio e nossos carros saem de três em três, em comboio”, diz o gerente operacional da Viação São Luís, Marcos Moisés. O destino de São João mais procurado na empresa é Senhor do Bonfim.

A empresa Águia Branca, que trabalha com viagens mais longas, também costuma fazer comboios. “Dá uma segurança maior”, afirma o assessor comercial da Águia Branca em Salvador, Diego Brasil. Os principais destinos de São João da empresa são Irecê, Piritiba, Itapetinga, Ibicuí, Jequié, Itabuna e Porto Seguro.

Já a Cumurujipe, que tem como principais destinos juninos Maracás, Jaguaquara, Vale do Jiquiriçá, Vitória da Conquista, Ubirataia, Ubatã, Ipiaú, Jequié, Milagres e Dário Meira, usa o mesmo sistema. A empresa Santana tem como destinos principais Cachoeira, São Félix, Conceição do Jacuípe e Santo Amaro.

Como são viagens mais curtas, a empresa não trabalha em comboio, mas o gerente de operações Fidel Sampaio confia nas polícias Rodoviária e Militar. “Eles fazem um trabalho diferenciado, aumentam o efetivo e a fiscalização”, diz.

Motoristas e cobradores bloqueiam Rodoviária
Sem encostar os ônibus para o embarque de passageiros, rodoviários voltaram a protestar, na manhã de ontem, por mais segurança durante as viagens intermunicipais e usaram ônibus para bloquear a entrada da  rodoviária de Salvador. A paralisação começou às 4h30 e 50 ônibus que eram esperados pelos passageiros só tiveram acesso à estação depois das 9h.

“Cheguei de São Paulo à 1h30 e só às 5h30 avisaram que os ônibus não iriam sair”, conta o técnico de TV a cabo Jucemar Novaes,  25 anos, que aguardava o ônibus com destino ao município de Seabra, na Chapada Diamantina, onde mora sua mãe. A manicure Viviana Arcanjo Teixeira, 26, chegou às 5h na rodoviária, com a filha de 3 anos no colo, e teve que esperar três horas e meia pelo ônibus com destino a Itaberaba.

“Minha fila está com calor, cansada, querendo colo”, lamentou Viviane. O motorista da Regional Raimundo Vasconcelos explica que a paralisação é pelo descaso com a manifestação do dia anterior – na segunda, funcionários das empresas Regional, Jauá e Cidade Sol protestaram na rodoviária, parando por três horas as atividades.

“Não tivemos respostas. Ninguém procurou a gente ou o sindicato para negociar”, explica o rodoviário. “Colegas que tiveram escolta da polícia ainda ouviram: ‘você sabe que é só hoje, né?’. Depois de ontem (segunda-feira) a gente sabe que voltamos a ficar desprotegidos”, explica Robson Argolo, representante dos rodoviários da Regional e da Jauá. Quem já estava com passagens compradas pode pegar o dinheiro de volta ou remarcar para outro horário.

Tipos de ação

Nos quebra-molas
Os bandidos aproveitam a redução  de velocidade dos motoristas nos quebra-molas, principalmente à noite e em locais ermos, e abordam os veículos.

Objetos na pista
Em locais onde não há quebra-molas,  os bandidos usam animais ou pedras  para obrigar os motoristas a reduzirem a velocidade e, assim, poder abordar o veículo

Abordagem direta
Em outro carro,  os bandidos emparelham com o ônibus e, armados, obrigam o motorista a parar, permitindo assim que eles embarquem e realizem o assalto

Bandido-passageiro
Os assaltantes embarcam na rodoviária  e esperam que o veículo chegue a local  predeterminado com comparsas para render motorista e cobrador e fazer a limpa nos passageiros. Foi o que aconteceu em Pojuca.

Fonte: Correio da Bahia






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