Em Condeúba, mulheres mostram sua força para encarar os problemas do sertão

Jornal A Cidade / Daniela Penha

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Arvelina Maria Ribeiro, que passou por consulta odontológica no Voluntários do Sertão; (foto: Milena Aurea / A Cidade)

Dia de grandes mulheres no sertão. Uma fez da dificuldade asas. A outra, impedida de voar, mantem o sorriso no rosto ainda quando conta que lhe tirariam os últimos cinco dentes da boca.

Arvelina Maria Ribeiro tem só 48 anos. Mas o rosto, refém do sol, da roça, da falta do que comer durante toda uma infância, insiste em dizer que tem muito mais do que registra a identidade. Dormiu três dias nas filas do Voluntários do Sertão, para evitar a viagem, que ela não sabe relatar em quilômetros. “Dá umas quatro léguas”, me diz. Uns quarenta minutos, depois consigo entender.

O medo de ficar sem atendimento venceu o cansaço. Na manhã da última quarta-feira (22), lá estava ela, sentadinha na fila do dentista. No dia anterior, conseguiu passar pelo ginecologista. Nem lembra quanto tempo fazia.

Arvelina só conheceu o especialista em dentes para arrancar. Quando já não dava tempo de arrumar. Na roça é assim mesmo, me diz sorrindo. É também sorrindo que ela me conta que a luz só chegou na sua casa há 15 anos e que a água ainda vem de caminhão pipa.

É tentando arrancar um sorriso de dentes faltosos que ela me conta que o marido morreu há três anos, depois de quatro na cama, e ela ficou sozinha para tomar conta dos oito filhos. “Ainda bem que a maioria já está criado”. E é com esforço tremendo que ela tenta sorrir ao deixar o consultório do dentista, já sem os dentes, e apavorada pela dor que passou.

“Minha filha, eu preciso tirar os pontos em oito dias. O amigos do sertão não vão tá mais por aqui. Como é que eu faço?”, me pergunta, com o pavor de quem passou a vida toda sem respostas.

Asas

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Angela Maria é secretária de Desenvolvimento Social; (foto: Milena Aurea / A Cidade)

Respostas que Angela Maria da Cruz Santos obrigou o mundo a dar. A menina humilde, filha de pedreiro e dona de casa, que costurava as folhas do caderno velho para ter como estudar no ano seguinte, é pós-graduada, vai começar uma nova faculdade na Universidade do Estado da Bahia e ocupa o cargo de secretária de Desenvolvimento Social de Condeúba. Até o início desse ano, Angela só era conhecida por amigos e familiares.

Acostumada à politicagem, decidi entrevistá-la com os pés atrás. Pensei que, como quase sempre acontece nesse meio, receberia dados e falas maquiadas, que querem provar o improvável quando a realidade já fala por si só.

Não foi assim com Angela. Ela me falou de dificuldades e conquistas. De alegrias e tristezas. Do real sentido de ocupar um cargo público. “Lembro como se fosse hoje: meu pai me mandou comprar sal e na venda me deram o troco errado. Voltei toda contente, com o sal e dinheiro a mais. Precisei devolver. Aquele dinheiro não era meu”.

Na cidade, a opinião sobre ela é uma só. “Está fazendo a melhor secretaria do governo”, dizem uns e também os outros. O que mais tenho feito nesses três dias de sertão é me surpreender. Que bom!

Fonte: Jornal A Cidade / Daniela Penha






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