Caravana solidária leva R$ 5 milhões em saúde ao sertão baiano

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A dona de casa Marlene de Jesus mostra os medicamentos que recebeu do projeto ‘Voluntários do Sertão’ (Foto: Adriano Oliveira/G1)

Desde que nasceu, a dona de casa Marlene Silva de Jesus, de 50 anos, mora em Alegre, distrito de Condeúba, no sertão da Bahia. Foi no povoado que ela se casou e criou os sete filhos. Hoje, além de cuidar da família, Marlene conta que sempre arruma um tempo para o pai, de 82 anos, e a mãe, de 76, que são aposentados, moram sozinhos e precisam de ajuda para cuidar da casa e da comida. “A situação é precária, sabe?”, diz.

No fim de abril, como há muito tempo não acontecia, Marlene levou os pais ao médico, um ortopedista, durante o mutirão gratuito realizado no povoado pela organização “Voluntários do Sertão”. O casal saiu do consultório com um receituário extenso: vitaminas, remédios para osteoporose, para combater vermes, entre outros.

A lista custaria aproximadamente R$ 1,5 mil em uma farmácia comum. Marlene, porém, não precisou desembolsar nem um centavo por eles. Tudo foi doado pelos voluntários.

“A gente nem tem como agradecer. Esses voluntários são como um pai e uma mãe para um filho. Meus pais são tão velhinhos e nem dormem direito de tanta dor que sentem nos ossos. Espero que esses remédios ajudem eles (sic)”, diz.

Ao longo de 15 anos de expedição pelo interior da Bahia, os “Voluntários do Sertão” já realizaram 203 mil atendimentos gratuitos, na tentativa de levar mais dignidade ao povo sofrido pela seca. Mas, o projeto não se resume às consultas médicas. Exames, pares de óculos, remédios, kits de higiene, brinquedos e até alimentos também são oferecidos gratuitamente aos sertanejos.

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Laboratórios farmacêuticos e médicos doaram 6 milhões de caixas de remédios para serem distribuídas (Foto: Adriano Oliveira/G1)

Na caravana mais recente, no fim de abril, 340 voluntários passaram uma semana em Condeúba e povoados próximos. O empresário Doreedson Ribeiro Pereira, o Dorinho, idealizador e presidente da organização, estima que se toda a estrutura fosse colocada na ponta do lápis, em valores de mercado, somariam cerca de R$ 5 milhões.

Nesse total, no entanto, não estariam incluídos empréstimos de instrumentos e equipamentos cirúrgicos, odontológicos, oftalmológicos e ginecológicos, que se fossem alugados, em vez de cedidos por empresas parceiras, elevariam ainda mais o custo operacional do projeto.

Toda a aparelhagem utilizada nas cirurgias, por exemplo, foi emprestada por hospitais e clínicas particulares, e transportada de Ribeirão Preto (SP) a Condeúba – cerca de 1,3 mil quilômetros de distância – em caminhões também cedidos por parceiros.

“Nós contamos com o apoio das prefeituras, do Estado e do Governo Federal, mas não podemos depender deles. Procuramos fazer de uma forma que o município gaste o mínimo possível. A gente tem que ter a nossa própria estrutura”, afirmou Dorinho, que esse ano contou com o apoio de 50 empresas e entidades sociais para realizar a 15ª edição do projeto.

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Exames oftalmológicos foram realizados em carretas cedidas por um instituto de olhos de São Paulo (Foto: Adriano Oliveira/G1)

O mutirão levou para Condeúba 6 milhões de caixas de medicamentos, que foram doadas por laboratórios farmacêuticos e por médicos que passaram o último ano recolhendo amostras grátis. Uma quantidade tão grande, que foram necessários cinco caminhões e uma ambulância para levar tudo até o sertão.

Nem foi possível retirar tudo das caixas dentro da farmácia improvisada, montada em uma igreja evangélica, também cedida gratuitamente para realização do evento. Nem tudo foi distribuído, é claro.Em uma semana, 9 mil remédios foram entregues aos moradores que passaram por consultas ou cirurgias. O restante foi deixado na cidade para ser distribuído aos pacientes do SUS, de acordo com a necessidade.

“É na farmácia que termina o atendimento. A gente fecha o ciclo de serviços do projeto. Se o morador passou pelo médico, pelo dentista e depois não tem condições de comprar o remédio que foi receitado, não valeu de nada o atendimento”, afirma o policial militar Valdemir da Costa, de 47 anos, que coordena o setor ao lado da mulher, a farmacêutica Simone, de 42 anos. “É ela quem entende tudo de remédio”, brinca.

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Dois aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) levaram os voluntários até Condeúba (Foto: Adriano Oliveira/G1)

Gestão
A Força Aérea Brasileira (FAB) e uma empresa de linhas aérea com sede em Ribeirão Preto também apoiaram o projeto, transportando os voluntários até o aeroporto de Vitória da Conquista (BA), o mais próximo de Condeúba. De lá, o grupo foi levado por ônibus municipais aos 43 pontos de hospedagem: as casas dos próprios moradores, que gentilmente cederam quantas camas vazias foram possíveis.

Organizar tudo isso não foi uma tarefa fácil, como conta a gestora do “Voluntários do Sertão”, a pedagoga Marta Pereira de Freitas, de 37 anos, irmã de Dorinho. Durante a semana do mutirão, em nenhum momento foi possível vê-la sentada ou relaxando. “A gente sempre ajuda em tudo. A gente já passou a noite e a madrugada inteira trabalhando, amarrando kits, separando lentes de óculos. Qualquer coisa que seja necessário, a gente faz. Tem que entender de tudo um pouco”, diz.

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Cozinheiros prepararam 210 kg de arroz, 140 kg de feijão e 112 kg de carne para alimentar voluntários (Foto: Adriano Oliveira/G1)

Marta só não palpitou na cozinha onde eram preparadas as refeições para os voluntários, montada em um ginásio de esportes, que funcionou como refeitório. Ali, o comando era do aposentado Etelvino Ribeiro da Silva, o tio Du, de 62 anos, que é ex-funcionário do hotel Copacabana Palace e marido da vice-prefeita da cidade.

Em uma semana, a equipe formada por 40 cozinheiros – divididos em dois turnos – preparou  cerca de 210 quilos de arroz, 140 quilos de feijão e 112 quilos de carne, além de legumes e saladas. Tudo foi oferecido pela Prefeitura de Condeúba e por produtores rurais da região. Os voluntários também consumiram 3,5 mil litros de água e 2 mil litros de refrigerante, doados por uma das maiores companhias de bebidas do país.

“O mais importante é todo mundo sair satisfeito, porque quem se alimenta bem, trabalha melhor e mais feliz. Também tem que haver controle para não desperdiçar comida. Esse tipo de coisa não combina com a filosofia do projeto”, afirma.

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Projeto ‘Voluntários do Sertão’ distribuiu 2,4 mil pares de óculos aos pacientes atendidos em Condeúba (BA) (Foto: Adriano Oliveira/G1)

Até o prefeito de Condeúba, José Augusto Ribeiro (PT), arregaçou as mangas e participou do projeto, transportando voluntários e pacientes entre os pontos de atendimento com a caminhonete própria. Ribeiro explicou que receber o mutirão na cidade é importante não só pela transformação social, mas também pela visibilidade que ele proporciona.

“Há 10 anos, nossa cidade não recebia a visita do governador, o que aconteceu com a vinda dos voluntários. Então, politicamente falando, receber o projeto é importante para o fortalecimento regional”, afirmou o prefeito, admitindo que os atendimentos realizados pelos voluntários não seria possível fazer com o orçamento de R$ 3 milhões da Secretaria da Saúde local.

“O que se faz em uma semana no projeto ‘Voluntários do Sertão’, a Prefeitura não conseguiria fazer em quatro anos de administração. Talvez nem em mais tempo não tivéssemos condições de proporcionar tantos benefícios à população”, concluiu.

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O prefeito José Augusto Ribeiro (PT) diz que não realizaria tantos atendimentos durante o mandato (Foto: Adriano Oliveira/G1)

Fonte: Adriano Oliveira G1 Ribeirão e Franca






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