A Política de Ontem e de Hoje

Da série Condeúba 151 anos

“Os ignorantes que acham que sabem tudo”,

“Privam-se de um dos melhores prazeres da vida” – APRENDER .

Hoje, uma moderna leitura, do que seja a nossa região, não fica claro como chegamos aqui, nem o que levou este pedaço de chão encravado no pé da Serra Geral, distante dos grandes centros, quase mil quilômetros, a manter uma identidade política, cultural nos moldes que ainda temos. Um mergulho mesmo que superficial na história, vai nos ajudar a compreender um pouco da nossa  própria  realidade.

A região que pode ser denominada de Sertão baiano, ou interior da Bahia (Eu prefiro “Sertão” porque traz certa identidade cultural) foi povoada bem depois dos litorais brasileiro levada inicialmente pela chamada “civilização do couro” ou “ciclo do gado”. Pessoas sem posses, na terra destinada ao plantio da cana-de-açúcar, encontravam uma saída economicamente viável, subi o Rio São Francisco, e criar gado nas margens do mesmo, para fornecimento de carne, tanto nas zonas da mata (produtoras de açúcar) como nas zonas do garimpo já um pouco mais tarde por ocasião do ciclo do ouro.

Ainda mais tarde, depois do dois de julho (1823) quando enfim se deu a Independência da Bahia, ou melhor, do Brasil já que a verdadeira independência só aconteceu realmente nesta data, visto que os Portugueses não   largaria o “ouro” assim só no “grito” (Ipiranga) (mais este é outro assunto para uma outra ocasião) muitos Patrícios saíram do litoral migrando para o interior, fugindo da perseguição dos nacionais.  Durante três séculos, a região ficou isolada e conservou valores políticos e culturais que seus povoadores possuíam originalmente. Valores da Europa medieval. Enquanto o litoral acompanhava de perto a evolução do Velho Continente, o Sertão por falta de contato conservava a herança cultural dos antigos colonizadores.

Segundo pesquisa de Selênio Homem: “A luta pela posse das pastagens”, “pela definição dos limites, configura o primeiro dos elementos medievais aculturados nas caatingas do Nordeste O domínio da gleba pela violência exigiu a liderança ousada – temerária até – e elegeu a coragem pessoal como a qualidade do homem”.

Continua Selênio – “O confronto armado contra o aguerrido gentio do local” “Ainda exaltou mais o heroísmo como atributo diferenciador”. Ambos os fatos concorreram para determinar o escopo econômico (posse da terra) o tipo de chefia a ser exercida, a necessidade de manutenção de força militar privada e a criação de unidades auto-suficientes e auto-protetoras. Surgiram assim o latifúndio, o coronel, e o jagunço, réplica das condições do Portugal medieval: o feudo, o senhor feudal e o cavalheiro.

“Com estes requisitos fundamentais” – segue ele – “nada faltava para o surgimento do fanatismo religioso e do poeta ambulante. Vieram, pois, a figura do beato e do cantador. Apenas o cangaceiro é que foi uma autentica aculturação… A música dos sertões nordestino, na sua expressão mais genuína – é cantação sem tirar nem pôr, e o folheto, a gesta ou o rimance. Como os trovadores dos feudos, costumavam os cantadores da Região irem e virem, levando noticias do mundo e cantando em verso, acompanhados  à viola, os feitos heróicos ou histórias maravilhosas, nas quais não faltavam as proezas dos Pares de França e da Távola Redonda. Como  os menestréis  medievos, eram (e ainda talvez o sejam) bem recebidos nas casas senhorias”.

CORONELISMO

A origem do Coronelismo, proveniente das tradições patriarcal brasileira, resumidamente explicada no parágrafo anterior, teve seu surgimento, ou melhor, institucionalizou no Século XIX Quando foi criado a Guarda Nacional em 1831 com a deposição de Dom Pedro I. inspirada na Guarda Burguesa, nascida fruto da revolução Francesa, com objetivo de defender a integridade do império e a constituição. E assim, se espalhou pelo Brasil, ganhando mais força nos interiores remotos onde a estrutura agropecuária era dominante. Estes quadros da corporação (Alferes, Tenente, Capitão, Coronel) eram nomeados pelo governo central, ou pelos presidentes das províncias, com longo processo de trafico de influencias e corrupção política, num país com estrutura baseada em oligarquias e em grande latifúndio. Estes começam a financiar campanhas políticas de seus afilhados, ganhando poder e notoriedade. Devido a esta estrutura, a  patente de coronel da Guarda Nacional, passou a ser equivalente a um titulo de nobreza, concedido apenas aos grandes proprietários de terra. Garantido a estes, poder para impor a ordem sobre os povos mais humildes.

Devido à dimensão do Brasil, e a falta de mecanismo do Governo central para impor alguma vigilância a estes coronéis. O sistema criado pelo coronelismo favorecia preferencialmente aos grandes proprietários de terra, que não tinham qualquer escrúpulo em invadir, expulsar e tomar as terras do pequeno produtor rural. Sem outra opção, tornavam-se servos, no mesmo molde da idade média. Surgiu então, a figura do compadre que era nada mais nada menos que alguém considerado inferior, e que tem de submeter à proteção e a vontade do coronel, ou era expulso ou assassinado impunemente para servir de exemplo.

Quando Luis Carlos Prestes parte de do Sul do Brasil, após a Rebelião Tenentista ocorrida no Rio (1922) e São Paulo (1924) a fim de depor o governo de Artur Bernardes, motivado pela situação política e social que estava vivendo o país naquela época, inclusive em defesa do voto direto (mesmo com a estratégia da ala conservadora que insiste em transformar Prestes em herói de consumo sem objetivo) este faz uma trajetória aparentemente estranha, passando pela nossa região. No entanto, estes revoltosos por serem militares de alto nível e muitos bem informados, sabiam exatamente o que encontrar por aqui: Sabiam dos exércitos particulares (jagunços) Cel. Doca Medrada em Mucugê, Cel. Horácio de Matos em Lençóis, Cel. Militão Coelho, em Barra do Mendes, Lampião em Sergipe, Pernambuco, até Santa Rosa, (Guajerú) havia Braulino (sem maiores informações) só para citar alguns.

Sabiam que estas forças, não estavam devidamente alinhadas com o Governo da Bahia, pois o próprio Horacio de Matos, já havia batido de frente em conflito armado, com Gov. Antonio Muniz por duas vezes e vencido em ambas.

Sabiam da coragem e determinação do povo sertanejo, a guerra de Canudos, há pouco mais de vinte anos passados, ainda estava muito fresca na memória de todos.

Havia um propósito claro de somar esforços com todas estas milícias e invadir o Rio de Janeiro.

Como podemos observar, nossa região está inserida no contexto da história recente do Brasil.

Voltando a causa política. Ainda na chamada República Velha, houve uma coligação de poderes estaduais, que favoreceu o pleno crescimento do coronelismo. O aumento das riquezas agrícola, e, portanto o poder dos grandes latifundiários e oligarcas, propiciaram sua chegada ao poder central e o Governo passou a ser o coronel dos coronéis. Aí, surgem os currais eleitorais, mantidos por alguns até hoje. Neste modelo, quem não estiver devidamente alinhado com o coronel do estado, haverá corte de verbas para o município daquele, (situação parecida com a nossa há muito pouco tempo) Nos municípios mais ricos, começa a aparecer oposição, ai surge os coronéis de situação e coronéis de oposição. Situação esta que não melhora em nada a vida do povo, pois uma vez, mesmo que raro, um coronel da oposição ganhando a eleição, a máquina política administrativa governamental emperra, e trabalha contra ele na política, no fisco, na justiça e na administração. Mecanismo simples mais eficiente.

Com o a Nova República 1930, (era Vargas) e até os inícios dos anos sessenta, a população rural inicia-se um lento deslocamento para os centros urbanos mais desenvolvidos. Principalmente Salvador, São Paulo, Paraná, Mato Grosso, O acesso à educação e aos meios de comunicação, aumenta um pouco o nível cultural e conseqüente à politização, surgem novos líderes, porém pouco chega para nós. Mantemos submissos aos velhos coronéis, boa parte da população interiorana é mantida ignorante e sem acesso a informação e educação principalmente na área rural, onde através da dependência econômica surge uma nova modalidade de adquirir voto, o chamado “voto de cabresto”, neste momento entra a política do “hidronegócio”. O velho carro pipa entra em cena.

A partir dos anos sessenta, até os anos oitenta, durante o regime militar, entra em cena o Caudilho, que se impõem pelo “carisma” ou “liderança” este é o verdadeiro “salvador da pátria”, sem ele, nada é possível e através do terror e da chantagem se  perpetua no poder até que a morte  os separe. Observe que só neste momento é que começamos a ter o mínimo de informação, só em 1972/3 chega a TV (muito mais por imposição comercial que por vontade política), no final da década chega luz elétrica (24h) (por necessidade imperiosa imposta pela crise do petróleo instalada no mundo, quando os paises produtores (OPEP) resolveram se organiza e boicotar o fornecimento de petróleo, os preços dispararam, o governo foi obrigado a instalar energia em todo país, com a finalidade de desativar aos velhos e gulosos  geradores movidos a diesel.) E só na virada do século começa a chegar o asfalto.

Com o fim da ditadura militar imposta no Brasil desde 1964 e promulgação da Constituição de 1988 o brasileiro passa a ter reconhecido sua cidadania e as denuncias de desmandos, corrupção, roubo e crime de colarinho branco começam a ser divulgada pela mídia e até pelo cidadão comum. Mesmo assim o nosso velho sertão ainda perdura a figura do “Cacique” que assume o poder pelo voto é apoiado por outro cacique maior, deputado federal, estadual ou senador. Seu domínio se espalha pelos currais eleitorais a seu dispor, espalhando uma política baseada no clientelismo, concessão de favores, cargos públicos, um carro para levar um “time” na roça, um jogo de camisa para o “time” do bairro, cargos de confiança na prefeitura, etc.etc.etc. É a chamada política de mão-no-ombro.

Dentro de uma visão mais clara da atualidade brasileira, com mais acesso à educação, a cultura, a televisão (mesmo de péssima qualidade) a Internet, a disseminação de informação, com a profissionalização do trabalhador rural, outros meios de divulgação nas massas populares, urbana e rural, associados a programas de integração social que garante o individuo uma condição humana no mínimo aceitável, está rapidamente quebrando o mito do eleitor sem memória. A ingenuidade e a submissão que caracterizavam a atitude do homem do campo, não mais existem entre aqueles que estão tendo contato com a nova sociedade.

Para concluir, gostaria de reafirmar, com estas informações acima, minha opinião a respeito do modo de ser e conceber política na nossa região, ela é histórico, com raízes profundas perpassando paralelamente com a história do Brasil.

Engana-se aquele que pensa que herdou algum destes modelos, aqui citados ao longo desta narrativa, mesmo porque para aqueles que não sabem ou não conhecem a história, liderança e carisma são conquistados e não herdados, como se estivéssemos num regime monárquico, onde se dizia: “Rei morto Rei Posto” “O Rei está morto viva o Rei”. Busque no passado e verás que nenhum grande líder mundial deixou herdeiro. Ex. Abraão Lincoln, Hitler, Gandhi, Alexandre, Dario, Ho Chi Mim, Josef Stalin, Lênin, Getulio Vargas e centenas de outros.

Para se candidatar a algum cargo de Administração municipal não basta querer ou arvorar ser um novo coronel, cacique ou caudilho, é preciso entender as aspirações de um povo com sensibilidade para compreender uma nova realidade bem diferente de um passado não muito distante quando não se conheciam os direitos mais elementares de ser cidadão. Tem de ser honesto por princípio, e ético por convicção, tem de sair da velha disputa raivosa que serve apenas para criar intrigas entre concidadãos, precisa criar um caráter sistêmico de equipe.  Não basta apenas ser líder, tem de ser Gestor, ter uma equipe competente racional e equilibrada, bem estruturada e motivada, ninguém faz nada sozinho.

Já que tudo que dissemos desde o início, faz parte da história, significa que não podemos mudar o passado, mas podemos fazer diferente o hoje e mudar o futuro.

Autor: Newton Rosário Vieira (Newton de Ritinha)
Natural de Caculé-BA, Condeubense por opção.

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4 Comentários

  • Muito bem, Newton!
    Seria bom que a história dessa cidade, desse estado e desse país fosse ensinada nas escolas primárias (fundamental e média) a fim de se formar cidadãos consciente de seus direitos e deveres e de sua força política que permite mudar, ao menos a cada quatro anos, a face do poder que se julga “dono” do destino desses cidadãos.
    Infelizmente em nossa querida Condeúba ainda existe muitos encabrestados e compadres que, mesmo sabendo que vão prejudicar o progresso de todos, espera por um favor pessoal nem que seja o caminhão de água.
    Parabéns! eu sabia que do petróleo e de Caculé poderia sair coisa muito boa!

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  • Meu voto para vice na chapa de Toinho é: Silvan Baleeiro

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  • kau disse:

    O difícil é ele aceitar, vc não acha Agnerio???
    Encarar um pepino desse???
    Ele pode ser o que for mas bobo não deve ser msm.
    Bom, seja Baleeiro, Tubaleeiro… seja quem for, condeuba já optou pela mudança. Toinho é passado… alias que passado hein. Não esquecemos.

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  • Paulino disse:

    Sou mais D. Elita, aliás sou qualquer um daqui a uma FORASTEIRA importada não sei de onde…

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